A boca e o sexo: com prazeres e preocupações desta década.


A boca e o sexo: com prazeres e preocupações desta década.
Psic. Oswaldo M. Rodrigues Jr.

sexólogo Oswaldo M. Rodrigues Jr. - InPaSex


A boca é um meio muito importante no relacionamento afetivo e sexual entre os humanos. Muitas interações envolvendo a boca participam do contato erótico e podem ser prejudicados pelas circunstâncias bucais. A boca produz um dos mecanismos mais importantes do início do contato afetivo e erótico neste último século na espécie humana: o beijo. Aqui temos muitas discussões sobre preferências e limitações envolvendo a erotização.O beijo produz uma série de mensagens neurológicas e químicas que transmitem sensações táteis, excitação sexual e percepções de proximidade, motivação e euforia. Muitas pessoas compreendem que o primeiro beijo decide o futuro do relacionamento, e que um beijo “ruim” descartará o/a candidato/a. O beijo facilita a produção de ocitocina, controlando a produção de cortisol. Portanto, beijar é bom para combater estresse! Aparentemente os efeitos do beijo são maiores sobre as mulheres no que respeita a produção de ocitocina, e nos homens o efeito pode ser maior como alivio de estresse.
Muitas pessoas sentem-se limitadas pelos cheiros e percepções das bocas. Embora tenhamos o discurso social do beijo ser importante, algumas pessoas o considerarão não higiênico… devido a suas características psicopatológicas, mesmo que não se desenvolvam a ponto de ser necessária uma intervenção psiquiátrica. A boca convive com muitas bactérias e vírus, é verdadeiro, mas preocupar-e com isso em pessoas saudáveis é algo psicopatológico e que limita muitos casais nas atividades afetivo-erótico-sexuais. Não é incomum ouvir casais debaterem e combinarem, pela primeira vez após uma ou duas décadas de casamento, que podem, sim, ter atividades sexuais no domingo de manhã, desde que ambos escovem os dentes antes de iniciarem as carícias… Claro que estes casais já apresentavam outras dificuldades anteriores: dificuldades de expressividade emocional e de comunicação afetiva e efetiva sobre necessidades e modos de solução de problemas a dois (por isso a psicoterapia com o casal se torna importante para muitos casais: será o momento de desenvolver com a ajuda de terceiros a satisfação de necessidades simples que não eram satisfeitas).
A questão verdadeira não é a higiene, e se for é psicopatológica a motivação que subjaz. As principais razões pelas quais uma pessoa se incomode com a boca da outra será por preferência ou limitações de cheiros e gostos. Gostar é algo muito importante no que se refere à excitação sexual. Gostar ou não gostar de cheiros da boca ode impedir um relacionamento sexual. Então, na história de vida anterior a sexo genital, se o cheiro/gosto da boca normal (com cheiros de boca…) houver sido associada a emoções negativas, a preferência por uma boca com cheiro de “hortelã” pode ter sido desenvolvida e daí para frente o cheiro natural da boca e saliva nunca serão aceitas para o inicio das atividades eróticas. Um condicionamento comportamental sobre o qual as pessoas não têm controle, mas poderiam ter se assim o soubessem.
Então, reclamar do mau hálito diz respeito a preferências estabelecidas anteriormente por situações variadas, e que não diziam respeito à excitação sexual. Claro que existem situações chamáveis de objetivas, reais: doenças de boca a estômago produzindo odores fétidos que todos considerariam inadequados para o sexo. Estes odores podem afastar parceiros sexuais, embora sob excitação sexual a percepção de odores e sua classificação diminuam muito. O problema com relação à boca e os beijos é que este contato se faz antes da excitação sexual estabelecer-se! O uso da boca é inicial, e não no meio da relação sexual.
Aspectos visuais da boca têm grande importância na aproximação erótica. Ausência de dentes frontais é considerada pela maior parte das pessoas como um fator negativo e não erótico, não atraente. Porém, é necessário saber que existem pessoas que tem preferências diferentes e que desejarão a aproximação sexual e erótica de pessoas com aparentes deficiências, a exemplo da falta visível de dentes. Outra questão visual sobre os dentes será a presença de cáries, em especial nos dentes da frente da boca. Isto tem conduzido à produção estética de arcadas mais brancas e com dentes mais uniformes do que no passado. Também é necessário perceber que diferenças culturais e sociais se aplicam: europeus não se incomodam tanto quanto norte-americanos no que respeita a estética uniforme e branca dos dentes e a atração sexual…
Claro que lábios se incorporam nesta discussão de modo direto. O uso de substâncias corantes aplicadas aos lábios vêm do Egito faraônico há 5 mil anos, e associava-se ao sexo oral aplicado ao pênis (felação), assim parecia simular uma vulva mais avermelhada e preparada para o coito. Desde então, e cada vez mais sempre, o uso de batom associa-se a maior atratividade da mulher. E por esta razão histórica, aos homens não coube a necessidade de tornar os lábios mais vermelhos para serem atraentes…
Assim, lábios descolarados e com sinais que aparentem doenças são descartados ou não valorizados na atração sexual. Além das reclamações sobre preferências acima descritas, existem condições que tem recebido atenção dos profissionais de saúde, embora com chances muito, muito pequenas e de incidências acreditada muito baixa: a facilitação de transmissão de HPV do genital para a boca e associando-se ao desenvolvimento de tumores bucais e câncer. Existem indícios em pequenos estudos, mas como as causas para tumores de boca estão claramente associados a hábitos de tabagismo e alcoolismo, raramente o uso sexual da boca aparece associado a estas doenças nos estudos ao redor do mundo. Isto tende a ocorrer por serem os tecidos da mucosa da boca muito similares à mucosa vaginal e do cérvix. A associação de uso de álcool e tabaco facilitam a tansmissão de HPV entre genital e boca. A associação de sexo oral com câncer de boca apareceu em estudos publicados em 2004, quando o tipo de HPV-16, usualmente genital, apareceu em câncer de boca em pacientes com hábitos de sexo oral. O risco é muito baixo de desenvolver câncer de boca nas pessoas que apresentam o vírus: 1 em cada 10.000, e associam-se em 75% dos casos a tabagismo. O câncer de boca ocorre mais em homens, daí a pressuposição de contaminação através da prática de cunilíngua (sexo oral na vulva). Esta não deve ser uma real preocupação, pois além de câncer de boca ser raro, parece ser mais rara, ainda, a associação de prática de sexo oro-genital e câncer de boca. Porém é necessário apontar que, se uma pessoa preocupar-se com isso, significa que os aspectos psicológicos, as características de personalidade desta pessoa são problemáticos e precisam de atenção de profissionais de saúde mental, pois este fato não deve, nem pode, causar preocupações que eliminem a possibilidade de comportamento e prática oro-genital nas atividades sexuais. Estudos em pacientes com a presença de HPV-16 na boca, e que tiveram mais de 6 parceiros em sexo oral anteriormente, apresentaram uma chance maior de 8.6 vezes maior de terem câncer de boca que pessoas que não praticaram sexo oral com mais de 6 pessoas ao longo da vida.
Claro que outras doenças sexualmente transmissíveis podem ocorrer quando a boca é usada em beijos comuns (boca-boca) além do sexo oro-genital: herpes, gonorréia, clamídia e sífilis (esta incluindo situações sem maiores envolvimentos eróticos, como existem relatos de pais infectados transmitindo a doença a filhos crianças…). E por último, o sexo oral no pênis, denominado felação, preocupa mais quando se menciona a possibilidade de transmissão de HIV, em especial com a ejaculação dentro da boca. As maiores chances de contaminação ocorrem quando a boca apresenta lesões na mucosa e cáries: aberturas para o vírus adentrar a circulação sanguínea. O oposto não encontra respaldos e pesquisas quantitativas, mas é percebida como uma possibilidade preocupante. Portanto, é mais possível que uma pessoa que receba ejaculação na boca possa ser contaminada com HIV do que o homem que ejacule ser contaminado.
Diante da preocupação com transmissão de DSTs, o uso de preservativos no sexo oral também é aconselhado. Sabe-se, no entanto, que estas orientações não são seguidas e nem consideradas pela maioria das pessoas. Mesmo pessoas que consideram que o sexo seguro, usando preservativos, seja importante e que realmente usem preservativos, quando chega o sexo oral raramente utilizarão preservativos…
A saúde sexual tem sido exaltada na última década com a retomada deste conceito feita pela Organização Mundial de Saúde. Em 1975 a OMS iniciou uma discussão com especialistas sobre a saúde sexual, partindo do princípio que saúde sexual exige a saúde social, a física e a mental. Assim a OMS retomava o discurso de que saúde é mais do que a mera ausência de doenças. Com as discussões e preocupações mundiais sobre o HIV/AIDS, a discussão foi postergada, embora grupos europeus tenham dado continuidade em reuniões de especialistas em sexualidade a final da década de 1970 e inicio da de 1980. Em 2000, na cidade de Antigua, Guatemala, a Organização Pan-americana de Saúde fez uma nova consulta a especialistas em sexualidade e produziu um documento sobre saúde sexual com diretrizes aos governos das Américas sobre questões de formação de especialistas e aplicação de educação em sexualidade e tratamento de problemas sexuais. Em 2002 a OMS replicou a consulta em termos mundiais e publicou um documento em 2003 reforçando o documento da OPS e a idéia de que saúde sexual é uma finalidade da busca da saúde.
Cuidar da boca e da saúde bucal é um ponto que necessita consideração para a saúde sexual. O uso da boca no relacionamento afetivo e sexual precisa ser considerado como muito importante entre os profissionais de saúde, em especial os que se dedicam a educação e saúde sexuais.
A boca inicia a atividade sexual muito antes de algo sexual existir.
A boca emite as palavras que conduzirão ao encontro sexual.
A boca é literalmente a porta de entra do sexo na cultura ocidental o século XXI.

Autor: Instituto Paulista de Sexualidade – http://www.inpasex.com.br
Fonte: Psic. Oswaldo M. Rodrigues Jr.
Data: 22/11/2008 – 12:13:41
http://abeis.org.br/artigos/53-a-boca-e-o-sexo-com-prazeres-e-preocupacoes-desta-decada-.html

Anúncios

Sobre Psic. Oswaldo M. Rodrigues Jr.

Psychologist and sex and couple´s therapist at Instituto Paulista de Sexualidade www.inpasex.com.br Psicólogo e Psicoterapeuta Sexual e decasais do Instituto Paulista de Sexualidade www.oswrod.psc.br
Esse post foi publicado em estímulo sexual, satisfacao sexual. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s